RAGNAROK E A ÚLTIMA NOITE DO MUNDO
Vivemos tempos angustiantes. Escrevo estas palavras em meio a pandemia do novo Covid-19. Nesse período temos hospitais lotados e pessoas morrendo por falta de equipamentos; planos e sonhos interrompidos; casamentos de anos sendo desfeitos; o aumento da violência doméstica; o crescimento do número de mortes por causa da fome, dentre outros acontecimentos.
Momentos assim são descritos como tragédias, catástrofes. Períodos em que somos levados a refletir sobre o que realmente é importante na vida. O luto, a tristeza e a desgraça são formas de ligar o sinal de alerta, avisando-nos de que não somos tão fortes e independentes como o espírito de nossa época quer fazer-nos acreditar.
Há um versículo na Bíblia que diz: É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério! (Eclesiastes 7:2). O autor não está dizendo que não podemos ir à festas. Ele somente quer nos dizer que em nossas vidas deve existir o lugar do luto. É necessário se depararmos com o luto. E o motivo é bem simples: um dia morreremos.
O luto exerce um papel pedagógico, isto é, nós precisamos aprender verdades importantes com esses momentos. A Banda Resgate lançou uma música chamada A dor. A letra como um todo é fenomenal. Mas gostaria de citar um trecho que ressalta justamente esta questão da dor desempenhando uma função pedagógica. O trecho é o seguinte:
A dor é professor pra nossa sanidade
Pra quem é humilde pra ouvir a verdade
A dor é professor, nos põem em igualdade
Quem poderia ensinar a humanidade?
Na dor nós estamos em igualdade. A grande questão é: será que somos humildes para ouvir a verdade? Fiz essa pergunta porque meu desejo é demonstrar que a catastrófe, a tragédia, seja ela qual for, só não terá a palavra final para o mundo por causa de um evento distinto dela. E não terá sobre a sua vida se você estiver pronto para a última noite do mundo. Pretendo alcançar esse feito, usando o mito nórdico do Ragnarok e o ensaio A Última noite do Mundo do C.S Lewis; além de um trecho de uma palestra do Jonas Madureira, com o título O Trágico e o Redentivo: a Filosofia a Serviço da Viva Esperança*.
Na palestra citada, Jonas afirmou que nós podemos responder a dor apenas de duas formas: redentiva ou trágica. A forma trágica é uma visão de mundo que nunca consegue compreender uma resolução. Nessa perspectiva, a tragédia não tem sentido e marca sempre o início e o fim dos "ciclos históricos". Já a forma redentiva configura-se com uma visão de mundo que percebe a tragédia não no começo nem no fim, mas no meio da história. Nela, o começo e o fim não são determinados pela tragédia, mas por eventos diferentes. Além disso, a tragédia possui um sentido.
Guarde essas informações, precisaremos delas logo mais. Onde o Ragnarok entra nessa reflexão? Não sei se você sabe, mas a mitologia nórdica é cheia de referências a um acontecimento cataclísmico que fará desaparecer a maior parte do mundo. Esse evento é conhecido com Ragnarok, "o fim dos soberanos". Ele está destinado a acontecer em algum ponto do futuro, anunciando o fim do reinado de Odim, além da queda de muitos outros deuses relevantes.
O 'fim dos soberanos' representa o paradigma da visão trágica. O próprio evento é uma catástrofe. Três anos de inverno ininterrupto; o sol e a lua serão consumidos; as estrelas deixarão de brilhar; os humanos perderão sua moralidade e se voltarão uns contra os outros; haverá um grande abalo no universo; muitos animais matarão vários deuses; acontecerá batalhas em todos os mundos (nove mundos, segundo a mitologia); o fogo se espalhará por tudo que existe e o mundo afundará no oceano.
O 'Ragnarok' serve como representação da visão trágica, justamente por acreditar que a tragédia é o evento que determina o início de uma era dourada. Segundo a mitologia, depois que o mundo afundar no oceano, ele renascerá fértil e renovado. Alguns deuses permanecerão, e o sofrimento, a ganância e a maldade não mais existirão.
A visão cristã de mundo representa a perspectiva redentiva. O fato do Filho de Deus, Jesus, assumir a natureza humana e, principalmente, morrer e ressuscitar, muda completamente nossa visão a respeito da tragédia, da dor e do luto. Jesus é o clímax do ato da Redenção. É sua morte e ressurreição que determinam o fim desse mundo como conhecemos e não a tragédia, como a do Coronavírus. São esses eventos que fizeram penetrar a era futura no tempo presente e garantem a plenitude desse tempo por vir, com novos céus e terra, no retorno de Jesus Cristo.
Alguém pode argumentar dizendo: "Se a morte e ressurreição definem o início de uma nova era, qual o motivo de não a enxergarmos hoje?". A explicação é a seguinte: esses eventos desencadearam o que os teólogos chamam de "Já e ainda não". Os cristãos já estão no reino de Deus, numa nova era, fazendo parte da nova humanidade; e ao mesmo tempo ainda não estão. Eles estão, mas não de forma completa. Essa plenitude virá somente no retorno de Cristo Jesus. Até lá existem dois mundos; duas eras, ou ainda, dois tempos, que se sobrepõem, coexistindo lado a lado, até o momento da consumação. É aqui que entra o ensaio A Última noite do Mundo de C.S Lewis.
Se a visão cristã de mundo é verdadeira, a tragédia não tem a Palavra Final. A obra consumada de Deus em Cristo é que possui. Logo, a fé cristã não elimina nem ignora as tragédias do tempo presente, pelo contrário, ela as assume, as reconhece. Entretanto, na metanarrativa bíblica elas nunca tiveram, não têm e jamais terão a palavra final sobre a História.
C.S Lewis disse no ensaio A Última noite do Mundo que a doutrina do Retorno de Jesus é o remédio que nossa condição especialmente precisa. Além disso, ele diz que essa doutrina terá fracassado, no que nos diz respeito, se não nos fizer perceber que a cada momento, de cada ano em nossa vida, a pergunta de Donne - "E se a presente fosse a última noite do mundo?" - é relevante.
C.S Lewis também afirma que o que a morte é para cada homem, o Retorno de Jesus é para toda raça humana. Na última noite do mundo uma crítica perfeita será dada ao que cada um de nós é. Será um julgamento inevitável. Se for favorável, não teremos medo; se desfavorável, sem esperança de que esteja errado. A pergunta mais importante agora é: você está pronto para a última noite do mundo?
Jesus disse: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho" (Marcos 1.15). Creia no evangelho. O que é o evangelho? É a boa notícia de que Jesus Cristo triunfou e retornará. E isso muda completamente como as coisas são agora e como serão no futuro.
Leandro Vieira** afirma que o evangelho responde como, por que e o que Deus salva. Deus salva o ser humano quando ele deposita toda sua confiança na obra consumada de Cristo, especialmente sua morte e ressurreição, como suficiente para pagar pelos seus pecados, e isso é uma dádiva do Altíssimo (Efésios 2:8-9). Deus salva para restabelecer sua sábia soberania e domínio sobre a criação, e também para devolver ao ser humano salvo uma posição de autoridade (Efésios 2:6-7,10). E por fim, Deus salva a criação, a qual edificou para sua glória (Efésios 1:10) e o ser humano que Ele escolheu na eternidade passada (Efésios 1:4-6).
Creia no evangelho e você estará pronto para a última noite do mundo. C.S Lewis termina seu ensaio dizendo: "As mulheres às vezes têm o problema de tentar julgar sob a luz artificial como um vestido ficará à luz do dia. Isso é muito parecido com o problema de todos nós: vestir a nossa alma não para as luzes elétricas do mundo atual, mas para a luz do dia vindouro. O bom vestido é aquele que enfrentará essa luz, pois essa luz durará mais". Você não pode vestir sua alma com nada mais que não seja o evangelho. A grande questão é: será que você é humilde para ouvir a verdade?
REFERÊNCIAIS:

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