TRINDADE: MUITO MAIS QUE REFLEXÃO TEOLÓGICA
Indivíduo ou sociedade? Os dois ao mesmo tempo. Calma, explico a seguir. Em 2020 tive a oportunidade de realizar o Curso Básico Olhando Para Fora, promovido pelo Invisible College, startup de formação cristã. Se você não acompanha, comece o mais rápido possível. Lá, o Pedro Dulci apresentou aulas que contribuíram grandemente para minha concepção da relação entre indivíduo e sociedade, sendo o paradigma da trindade aquilo que mais chamou minha atenção e, consequentemente, enriqueceu minha compreensão.
A grande questão sobre a relação entre indivíduo e sociedade é esta: No estado inicial da vida humana, cada ser humano era, fundamentalmente, um indivíduo buscando seus próprios interesses, como proposto por John Locke e Thomas Hobbes, os fundadores da teoria política moderna? Ou a sociedade é o "fator básico", antes da política, da cultura ou religião, e antes dos objetivos e aspirações dos indivíduos?
Qual é a alternativa verdadeira? Essa não é pergunta correta. Nós amamos as polarizações. Você é de direita ou de esquerda? Você é progressista ou conservador? Pedro Dulci é alguém que tem "batalhado" exaustivamente contra esses reducionismos, que não são suficientes para explicar a gama das dinâmicas e processos sociais existentes. Essa reflexão é uma tentativa de ajudá-lo nessa tarefa árdua. Além do fato de que amamos as polarizações, pode-se dizer que essa divisão reducionista de indivíduo ou sociedade é oriunda também do pensamento cartesiano, isto é, uma divisão rígida entre o todo e as partes, resultante do pensamento do filósofo René Descartes.
Na tentativa de resolver a relação entre indivíduo e sociedade, muitos pensadores e pensadoras escolheram defender um dos lados da relação e o resultado foi idolatria. É idolatria mesmo, você não leu errado. Aqueles que optaram pela primazia do indivíduo, acabaram por defender o indivíduo como o bloco fundamental que constrói as sociedades. Em contrapartida, aqueles que escolheram pela primazia da sociedade, também não tiveram alternativa a não ser colocar a sociedade como construtora dos indivíduos. E onde entra a idolatria nisso? Tanto a primazia do indivíduo como a da sociedade são deificação, isto é, uma divinização do indivíduo ou da sociedade. Logo, nenhuma dessas divinizações são soluções adequadas para o cristão, nem uma solução completa para explicar tradicionais dinâmicas e processos sociais existentes.
Não corrigimos o individualismo da teoria política moderna com a sociologia. O inverso também é verdadeiro: Não consertamos a deificação da sociedade com a divinização do indivíduo. Foi isso que Pedro Dulci, citando Peter Leithart, o autor do livro Vestígios da Trindade, me fez entender. Tanto a pergunta “indivíduo ou sociedade?”, como as tentativas de respondê-la são inadequadas e soluções incompletas porque a distinção entre indivíduo e sociedade não existe na prática.
Pedro Dulci afirma que "Existe uma relação de interpenetração mútua/habitação mútua". Então, qual o motivo dos sociólogos não reconhecerem isto? Ele continua: "como não se pode achar uma relação como essa a não ser na trindade, os sociólogos optaram deliberadamente por separar ambos, a fim de tender para um extremo ou outro".
Você deveria estar louvando o Deus trino por conta deste último parágrafo. Isso é sublime. Observe o Pedro Dulci falando a mesma coisa com outras palavras: "A trindade nos fornece um padrão de inteligibilidade de toda a realidade que ressignifica consideravelmente antigos dualismos e polarizações que o pensamento sociológico parece não conseguir sair". Na pericorese trinitária (o mover para dentro e para fora - como em uma dança coreografada) encontramos um paradigma para nossa presença no mundo, bem como para as relações humanas. Aleluia!
Qual o impacto de toda essa construção argumentativa teológica, filosófica e sociológica para a minha vida diária? Explico a seguir, com a ajuda de Peter Leithart. Ele disse, em sua obra Vestígios da Trindade, que "Não se pode reduzir nenhum indivíduo ao outro, nem indivíduos são simples somas ou produtos doutros, que os influenciam. Entretanto, sou o eu único que sou só por causa doutros que me moldaram... A sociedade tem de habitar dentro de indivíduos, e indivíduos dentro da sociedade".
Ainda tem mais: "Se estou no mundo como o mundo em mim, podemos crer ainda mais que meus amigos e família habitam em mim quando derramo meu coração neles. Se tenho um relacionamento recíproco com a rocha, a árvore e a folha, quanto mais com meu pai e mãe, irmã e irmão, esposa e filhos".
Para finalizar, eu gostaria de dizer que essa reflexão é um apelo em vários sentidos. É um apelo para deixarmos as polarizações. Há um mundo escondido naquilo que achamos ser somente um guarda-roupa da realidade. Fãs de C.S Lewis compreenderam a metáfora. Também é um clamor para repensarmos a influência do pensamento cartesiano em nossas reflexões políticas, filosóficas e teológicas. E por fim, é um apelo para valorizarmos as doutrinas da fé cristã e um chamado ao estudo e reflexão de suas implicações para a nossa vida como um todo. Valorizemos o senhorio de Jesus Cristo sobre todos os aspectos da realidade.
Escrito por: Wellington Ribeiro.
Revisado por: David Viana.
Design: Paulo Cezar.

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